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[25.3.10]


pequeno relatório sobre uma noite que nunca vivi.

então chegou mais uma noite igual a todas as outras vividas desde que caí. estrelas e postes enfadonhamente iguais, luzes gélidas afastando qualquer pretensão de sossego e anonimato - ou talvez apenas minhas pupilas me sabotando e me protegendo do medo que eu não tenho do escuro. e naquela noite estúpida eu fui parar naquele lugar em que nunca estive e conheço mais do que a mim mesma. era um lugar extremamente comum, tão comum, deliberadamente comum, que nunca fiz questão de tentar enxergar o que estava fora das minha projeções. e naquela noite, mais uma vez, escutei a música que nunca havia escutado antes; no entanto os acordes me eram mais do que familiares. também estavam lá aqueles ilustres desconhecidos que me acompanham desde sempre. tão ilustres e tão desconhecidos que eu nem vi seus célebres rostos. mas reconheci suas ideologias simplórias e corriqueiras, restos de alguma bebedeira homérica. ouvi suas vozes roucas e intimidadoras disputando espaço com a minha sobriedade. contei aos ilustres desconhecidos tudo aquilo que nunca admiti saber e senti tudo aquilo que nunca admiti conseguir. todas as minhas barreiras caídas ao meu redor. e de repente veio a ventania, uma onda forte arrastou todas as minhas partes que estavam por perto. intensidade. intensidade define bem. foi tudo um intenso disparate de uma noite tão distante que só me deixou algumas etéreas reminiscências. ou foi ontem? não sei. tantas noites bizarramente iguais e bizarramente diferentes me confundem - eu, que já não sei mais como lidar com meu tempo e meus desejos. me lembro bem que bebi as mesmas merdas de sempre, enchi os mesmos cinzeiros de sempre e senti aquele desconforto relativamente inédito em mim. então os ilustres desconhecidos cuspiram na minha cara todas as mazelas que eu costumava esconder nos cantos escuros do meu bueiro. meu bueiro. é isso, eu estive no bueiro com os meus fantasmas e projeções estúpidas fabricando mais alguns quilos dos meus intensos disparates.

e tudo continua igual, tão igual.

:: divina ::