[versão 0.2]
[arquivo]
[o código de barra]
[birulidiossincrasias]
[fotologay]
[orkut]
[recados]

[18.1.08]


e era um dia cor de tédio e cheiro de branco, sólido como um bloco de concreto. não existia uma lua, não existia um sol, não existia um vento, não existia um furacão, não existia um terremoto, não existia uma invasão alienígena em itapecerica da serra, não existia um arrastão na praça matriz de divinolândia, não existia um pão de queijo com maionese picante, não existia uma vontadezinha mínima de tirar o pijama meigo e me montar pra ninguém. enfim, um niilismo existencial bem medíocre e onipresente. o sulferino nas quatro paredes do meu pesadelo contrastando com a cor de tédio do mundo e com e esse maldito hábito de tentar me mimetizar a tudo pra disfarçar sei-lá-o-que, ficando de cantinho-bem-cantinho assim tão de repente que nem eu percebo. de fato fui notar-me no cantinho sulferino após os vapores do vinho e após os vapores da fumaça. essa cor de medo e tédio está insuportavelmente espalhada por todo o meu chão assim como esse cheiro de tinta acrílica misturada com branco e cera finalizadora. o branco dói aquela dor não-induzida e brochante, pior que cocaína barata matamorfoseada em sal de frutas com enxofre. e a janela, como sempre e para sempre, trancada a sete conchinhas. tento me diluir nas sábias palavras escatológicas do velho buk, conselhos travestidos de vinho barato, cavalos de corrida e vagabundas. não, não dá. quem sabe o desespero sufocante e paradoxalmente calmo de kafka? não tem como. e é exatamente aquele dia eterno e cor de tédio e cheiro de branco que exige alguma distração mas não me deixa sair do cantinho-bem-cantinho. ar puro? não resolve. tem gente que nasce pra respirar fumaça de cigarro de palha do canto da boca de algum velho provinciano. e tem coisa que a gente não escolhe mesmo e acontece com uma facilidade absurdamente excessiva. e tem coisa que a gente quer até doer lá dentro aquela dor induzida de ansiedade e está a uma esticadinha de braço, não obstante é abusivamente difícil. é preciso fazer a esticadinha de braço da hora certa, exatamente quando convém ao acaso. o que torna a maioria das pessoas susceptíveis a seus próprios fracassos iminentes é a mania de arquitetar a tal esticadinha de braço. perspicácia, por obséquio. planejar cada átimo de segundo torna as coisas insuportavelmente chatas, mesmo as mais desejadas, mesmo o futuro mais brilhante, mesmo a trepada mais inusitada. e é esse tipo de coisa que elimina toda e qualquer possibilidade de escolha prévia e racional. uma coisa ou outra. às vezes é um querer tão querer que vai e volta por séculos até virar fato consumado sem prévio aviso. aleatoriamente falando, esperar dói. e dói litros. deixa o dia cor de tédio e cheiro de branco, sólido como um bloco de concreto. passei os últimos meses fazendo[tudoerrado]. não consigo mesmo planejar os próximos cinco minutos sem misturar realidade com mundo onírico, nem gosto. mas essa é a ordem natural dos fatos: primeiro vontades viram planos, depois de um tempo não cronometrado planos viram reminiscências empoeiradas na estante, por fim vontades voltam a vontades e se elas forem realmente grandes transformam-se em realidade e retomam planos distorcidos. acabo como uma caronista de mim mesma sem gps nos corredores sem placas e cheios de portas onde impera a total incerteza. para os céticos ou amantes da argumentação, vide raskólnikov e cândido. o pobre raskólnikov perdeu um pedaço da vida que poderia ter sido deveras significante a planejar o daqui-a-pouco que nem existia de fato. e então? deu tudo errado. cândido de voltaire passou muito tempo buscando a vida perfeita, e quando conseguiu viu que era uma ressaca de vodca barata. não faço planos, tento visualizar meus desejos imediatos e colocar a pontinha do pé no chão. não quero a vida perfeita, quero a vida que satisfaça minha necessidade psicossomática de viver em caps lock. dei a esticadinha de braço na hora que me foi conveniente e agora estou de cantinho, cheia de medo, fedendo a desespero e me alimentando das folhas caídas do calendário. enfim, nada de muito atípico. raskólnikov e cândido que me perdoem, quero ser camila chirivino fodida e mal paga.

:: divina ::