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[30.4.07]
e então que chorei as lágrimas mais amargas, me encolhi toda, me enrocambolei no edredon como se o vento cortante das madrugadas divinolandenses de julho existisse somente naquele lugar que eu passei a chamar metonimicamente de "quarto". chorei alto e dolorido, expulsei as mágoas em forma de soluços profundos. pedi um abraço. mentira. tudo não passa de uma poética mentira. não chorei, não soltei palavrinhas, não pedi abraço. apenas me encolhi, me mimetizei ao edredon, apaguei a luz e fiquei calada tentando mandar para o estômago a bola de boliche que estava na garganta, tentando mastigar as farpas com sangue e colocar os pregos no colchão. "eu sinto tanta falta de você, de andar pelas ruas sem saber porquê e escrever nas roupas tudo o que ninguém parece escutar". como diria aquele cara do los hermanos, "aquilo que eu temia aconteceu ou foi só ilusão": me transformei num transgênico estrambótico drummondiano de mim mesma. a minha história? desenhos, percepção despercebida de uma realidade inexistente. palavras, hieroglifos enigmáticos de um código degenerado. imagens, imagens nas pálpebras, no céu da boca, nas roupas. imagens que ninguém quer ver, símbolos que ninguém quer entender, uma subjetividade ébria e inerente a mim. sinto falta de mim mesma, do tempo em que eu era real dentro do meu mundo inventado. eu acreditava nos meus próprios passos, mesmo que incertos e inacabados como um clipe sem nexo e sem final de uma música sem escala e tom. me sinto como aquele garoto do filme que de repente se vê preso a um livro em branco de uma história sem fim. essa é a essência da coisa: nunca acaba, acaba e ninguém percebe, recomeça e ninguém nota, ciclos se fundem a todo momento e ninguém é avisado quando tem uma nova chance. sempre correndo, sempre atrasada... talvez seja adolescente demais esse negócio de incertezas e culto a um passado não tão distante e não tão bagunçado como agora. vejo uma 'velha' de cinqüenta anos perdida em algum lugar fracassado do mundo, com olhos bonitos e uma saudade imensa de si mesma sob forma de remorso, sem luz e sem sombra. tudo o que ela quer é sair sem rumo numa noite fresca de segunda-feira e voltar bem tarde após cigarros, folhas secas e estrelas cadentes. mas ela não vai. não consegue pensar em nada além do rosto feliz a ser simulado na manhã do dia seguinte. e no próximo. e depois também. e sempre depois do próximo. tudo pra manter aquele emprego detestável de dalitógrafa mal-paga e mal-comida e pagar o aluguel daquele armário travestido de quarto e arquitetado estrategicamente para que o ar não entre. "e é tão fora de moda ficar mal..." :: divina ::
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