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[7.2.07]
"...não há nada além de tinta e sangue em tuas escrituras."
eu abri os olhos e de repente percebi que haviam colocado uma parede de vidro entre minhas mãos e tudo o que eu sempre quis tocar. de algum modo eu sei que o vidro é inquebrável. desespero. tento bater, não aceito a "verdade: inquebrável" do vidro. cada centímetro do meu corpo pálido dói qual milhares de punhais entrando vagarosamente e sufocando gritos roucos. meus braços já se acostumaram com a dor punjente, eu bato sem parar, sem respirar, sem ver, sem sentir. meus dois braços fracos suicidam-se por exaustão, e o vidro resiste. o sangue saído de meus punhos abertos não pode manchar o vidro, não é digno sequer de aproximar-se dele. o que mais desejo tocar continua intocado e intocável frente a meus olhos salgados de lágrimas e turvos de sangue. tento virar-me na esperança de encontrar saída ou ao menos distração. colocaram outro vidro às minhas costas, o mesmo vidro inquebrável e imaculável, e atrás dele uma luz tão forte que faz meus olhos sangrarem, ultrapassa as pálpebras inchadas e as mãos magras com os punhos fedendo a sangue podre. a luz queima, tortura. colocaram-na lá estrategicamente para me lembrar do FRACASSO. sinto na pele rasgada o vento frio que cheira a amoníaco e carrega grãos de areia e sal. eu mesma coloquei as placas de vidro lá, mas não me lembro da saída. corro em direção ao vento, uma corrida sem fim de olhos fechados e adagas em punho em busca de um inimigo inexistente a quem culpar pela minha própria incapacidade. meus calcanhares sangram sobre o fogo do chão. esfrego os olhos com os punhos ensangüentados para tirar um pouco da areia e das asas de insetos mortos. inútil. tenho as pernas quebradas e me esqueço disso a todo instante. na verdade eu sempre soube do fim trágico, mas nunca imaginei que ter certeza pudesse doer tanto. tanto. e fico impotente diante dessa dor, auto-desprezo. agora já não sei se quero ser um gregor samsa a apodrecer num quarto escuro ou se quero continuar me jogando ao coliseu de FRACASSOS.
:: divina ::
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