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[2.2.07]
madrugada. pessoas dormem como anjos suínos e exalam odores e ruídos, pessoas descansam em seus travesseiros de pena de ganso e ares homéricos, pessoas sonham com coisas lindas e desejáveis. mas eu não. eu escuto os gritos desesperados daquele gênio que de repente invadiu a minha vida, penetrou em cada milímetro cúbico da minha rede neural e me fez digerir cada palavra de sua arte. tento prestar atenção no timbre de voz, nos gemidos das guitarras, na suavidade do baixo, nas batidas acíclicas da bateria, mas minha mente vai mais alto, transcende os fones de ouvido e paira no teto do quarto. olho fixo para a uniformidade inerte do teto por algum tempo não-cronometrado e tento imaginar como seria se ele não estivesse ali. fecho os olhos, tento pensar em algo que é como é porque não depende da minha vontade e nunca esteve condicionado aos caprichos de alguém. não consigo ver nada além das minhas pálpebras cansadas que mesmo assim não se deixam fechar facilmente. não me lembro de como é o céu além do teto, não me lembro das formas amebóides das nuvens, não posso imaginar a palidez do luar, se é que ainda existe uma lua, se é que ainda existe um céu. talvez eu tenha me trancado por tanto tempo no quarto escuro de desejos falsos e mofados que me esqueci de olhar pra fora. e agora percebo, me esqueci também de como olhar pra fora. já não posso abrir as janelas e deixar a luz entrar. me acostumei a viver sem luz, criando mitos sob uma vela sem pavio e experimentando cores fantásticas de uma paleta monocromática. deixei que as aranhas fizessem suas obras de arte em teia sobre cada vão das janelas. deixei o mofo me invadir e escrever versos épicos e ilegíveis na minha traquéia. tranquei e porta e engoli a chave. os interruptores estão espalhados por todos os lados, são milhares deles ávidos por meus dedos trêmulos a tocá-los no escuro, mas eu fiz questão de cortar todos os fios segundos antes de engolir a chave. não há luz para os espelhos disformes que me perseguem. apalpo a escuridão e só encontro seres etéreos que sussurram em meu ouvido que lá fora existe vida. lá fora. e eu existo só aqui dentro, convivendo horas a fio com meus medos, pesadelos e inseguranças que sempre tentei trancar dentro no armário, atar as mãos, cortar as línguas e asas para sustentar meu vício da auto-suficiência e alcançar o nirvana do inexorável. mas eles existem na mesma proporção que eu semi-existo e o armário está insustentavelmente cheio. a verdade é que eu nunca olhei pra fora e nunca fui um arquétipo da satisfação. melhor assim, isso torna a luz desnecessária. :: divina ::
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