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[7.11.06]


"é só um dia então como outro dia qualquer em que você não é ninguém... "

ela fechou os enormes olhos vermelhos. sentiu o vento sussurrante degladiando-se na selva de cabelos esvoaçantes. sentiu aquele frio sem nexo que percorria toda a espinha e sumia quente e misterioso em algum lugar inimaginável. sentiu as vibrações das malditas caixas de som. definitivamente, seu conceito de música não era aquele. shoulders, toes and knees, i'm thirty-six degrees. trinta e seis graus não tão bem distribuídos na linearidade branca e oscilante; a maioria se chocando no insignificante encéfalo e imergindo em pensamentos tão desconexos. começou a pensar na volatilidade da fumaça hesitante entre os corpos estúpidos a se mexer sem rumo. a fumaça que saía das vísceras de um qualquer e ia se transformando nos moldes das definições pessoais do acaso. a fumaça era linda; e tão execrável quanto as respirações que se misturavam e se constituíam num só suspiro daquele pedaço inútil da montanha insípida. ela olhava por cima das placas de metal procurando algo impossível de ser encontrado e via ao longe uma cidade; com postes e nada mais que postes. talvez fosse só uma cidade de postes acesos e inanimados com alguns mares de morros ilustrando o cenário pitoresco. ela via a lua resistindo à movimentação frenética e paradoxalmente preguiçosa das nuvens ébrias. viu com os olhos de vírgula os sacos de gelatina podre com vozes distorcidas. olhos de vírgula que quase não se abriam por causa da poeria de estrelas que o vento trazia forte. o vento que vinha daquele canto que ninguém conseguia enxergar sem dor. talvez seu conceito de fala fosse como seu conceito de música; algo indizível transcendendo o som distorcido que saía ininterruptamente das pessoas sem face, os sacos de gelatina podre, os paradigmas da humanidade decadente. os olhos de vírgula sufocados uniam-se em essência aos cabelos sem forma e à magreza pálida construindo sua inexorável imagem de desajustedemundo que tantos tentaram definir em versos. ou... talvez ela fosse só mais uma qualquer a cruzar a vida tentando pintar tudo com sua encantadora paleta de tons de vermelho em grayscale. o que distingüe esta ninguém dos demais ninguéns do mundo é o incontestável fato de que ela ainda tenta fazer diferente, mesmo que isso não ultrapasse a redoma de vidro que circunda seu mundinho sob a montanha de bosta. ela já não é mais macabéa. e a ironia da história é que talvez nunca tenha sido; mas demorou para perceber seus [in]satisfatórios talentos intrínsecos. já não é samambaia seca, já não é café frio. é só mais uma ninguém com a capacidade de sentir o cheiro podre.

:: divina ::