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[14.8.06]


meu tempo vai ficando cada dia mais ausente de mim. de repente tudo ganhou um ritmo frenético que eu quase não posso acompanhar. quase, inefavelmente um quase. minha vida foi jogada em cima de um trem. e eu fiquei na estação sentada em algum banco de madeira envernizada e metais verdes com um copo descartável de alguma coisa barata e sem gelo. alguma fumaça saindo sutilmente da boca com os suspiros sôfregos. algum vento bagunçando um pouco mais os cabelos e levando pra longe os fantasmas. fantasmas dos tempos dourados em que dois mais dois ainda era quatro. fastasmas da época em que meus olhos não tinham o sangue das palavras. e eu sempre me forço a ver o mundo distorcido. as pessoas da estação viraram grandes sacos de gelatina disforme soltando ruídos torturantes. e elas não param de se mexer e tentar transpôr a barreira da franja. a intransponível barreira dos fios já não pode suportar o bater de asas de um mosquito. o copo se esvazia e o gosto de -ol me faz tremer. a fumaça dos suspiros também se vai. as gelatinas disformes deixam de me observar e entram no trem. o trem grita e mexe as pernas e corre e corre e corre cada vez mais. enfim, sou novamente uma total anônima em uma estação abandonada com um copo vazio entre as mãos imóveis. e então o óbvio inevitavelmente me pega pelos ombros e balança e grita até meu olhar subir e a parte racional acordar [parcialmente] do delírio. minha vida vai lá, naquele trem já longe. mas não tão longe que eu não possa alcançá-lo. corro. corro. corro. minhas pernas doem. e minha vida se distancia dez anos em um segundo. tudo dói e eu até penso em parar. não pela dor, e sim pelos ímpetos de voltar para a estação que também se distancia. se distancia e me atrai. talvez eu tenha que ficar lá no banco da estação com o copo e as fumaças vendo pessoas deformadas com olhares pérfidos querendo penetrar minha alma. talvez um dia o trem volte. e minhas coisas certamente estarão no depósito de perdidos de alguma estação decadente e desabitada de alguma cidadezinha riscada do mapa. alguma cidadezinha que já teve as glórias de um passado histórico e hoje é só um monte de sucata atrapalhando o caminho do vento. no fim eu sou só uma cópia rasurada das coisas que imagino. e meus desejos não passam do rascunho esperando por uma mão ávida a amassá-lo com ódio.

:: divina ::