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[29.6.06]
há um prego na parede, bem na sua frente. consegue visualizá-lo? esforce-se, tente ver além do que o mundo vê, tente olhar para onde eu estou apontando. consegue? às vezes você precisa se desprender um pouco de si mesma e imaginar coisas que não existem, mas existem. não, não é preciso entender. caso você tenha conseguido visualizar o prego, será que consegue observar mais um detalhe? eu estou lá. eu estou aqui sussurrando ao seu ouvido e lá pendurada no prego por uma corda enrolada no pescoço. não, não dói, apenas faz cócegas. e pra você, dói? eu estou lá em cima com a traquéia fechada, sem respirar. e sabe do melhor? o prego foi colocado estrategicamente para cair daqui alguns minutos. até a parede é podre. tudo ao redor é podre. e eu? eu sou um tanto de gelatina e ossos e sujeira dentro de um saco de pele torturada. eu posso sentir os segundos gotejando sobre mim. todo o tempo eles caem bem no meio da minha testa, e eu não posso fugir. afinal, eu sou um saco podre de ossos e gelatina e não consigo me mover. nem poderia me mover, estou pendurada na parede, caindo aos poucos. a parede vai se desfazendo, se esfarelando. e eu posso ouvir o tijolo se desintegrando. posso sentir o impacto dos grãozinhos caindo no chão. e você, pode sentí-los? pode me ouvir? estou gritando um pouco acima de sua cabeça, gritando algo incompreensível, pois o som dos segundos caindo sobre mim me deixa louca. não quero ouví-lo mais. minha voz some aos poucos e o desespero aumenta proporcionalmente. por que você não dá um murro na parede e agiliza o processo? ou você ainda não me ouve? um pedaço de mim está sussurrando bem perto do seu ouvido e quer que você atire um paralelepípedo na parede. às vezes esse pedaço até se arrisca a enfiar a língua na sua orelha. será que você sente? o que me irrita é essa sua indiferença desproposital. acredite, as coisas seriam bem melhores se você fosse filhadaputa e esnobe porque quisesse. pelo menos assim eu teria a quem culpar. o sangue começa a correr fraco nas veias. se é que ainda restou algum sangue depois da última vez que você me rasgou. já não consigo enxergar minhas veias verdes-azuis-roxas inchadas no braço. já não posso ver meu coração batendo timidamente no peito. já não posso enxergar minha sombra nos seus olhos. parei de sentir o impacto dos minutos misturados com poeira. e ainda me resta o último milímetro de prego enterrado na parede. e depois que o saco de merda cair junto com a corda e o prego? aí você catarra em cima, vira as costas e vai embora. não peço mais nada. enfim, caindo. a velocidade aumentando e dois metros duram uma eternidade. o impacto do ar me tortura. o som das micropartículas do ar batendo em mim causa espasmos psicológicos. pronto. agora só resta uma massa disforme e levemente ensangüentada perto de seus pés. é a sua vez: catarre. não, não vire as costas, você não pode ir embora sem me dar a última humilhação. adeus, pedaço de vidro estúpido. :: divina ::
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