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[5.3.06]
murphy quer me comer por trás. sim, ele quer. quer muito. eu sou a obsessão de murphy. a doce obsessão amarga de murphy. e ele me quer a todo custo e vai me perseguir até conseguir, até me pegar e foder tudo o que eu tenho de fodível.
eu acordo com murphy do meu lado, na minha cama. ele gruda em mim o dia todo. ele me agarra neste calor infernal e nós transpiramos e ele faz minha maquiagem derreter e minha vida vazar pelos poros. ele não me solta por um minuto. quando eu como, ele vai apertando meu esôfago gradativamente, vagarosamente, até a dor ficar insuportável, então eu engasgo e cuspo sangue. ele ri. murphy disputa espaço comigo na cama. ele me empurra e deita em cima do meu braço até deixá-lo roxo e com milhares de escaravelhos caminhando sob a pele e enfiando as garras nos nervos e me fazendo ter espasmos. ele gosta de me fazer sofrer. ahh, ele gosta disso.
nós estamos juntos já há algum tempo. não me lembro exatamente quanto, mas o suficiente para me fazer acostumar com os caprichos de murphy. ele é tão sistemático quanto eu, e invariavelmente vemo-nos medindo forças. confesso que murphy é bem mais forte que eu e ainda não me matou porque quer se divertir bastante antes de ir embora, e está conseguindo.
murphy ainda não me comeu. mas não é a minha resistência que está fazendo-o adiar, ele ainda não fez porque não quis fazer e quer aproveitar cada segundo deste inferno. murphy sim é que vive como deve-se viver. ele se diverte às custas das pessoas por algum tempo, e quando elas estão à beira da loucura ele as fode e vai embora procurar mais diversão. e o detalhe pitoresco da história é que ele nem se lembra do rosto das suas fodas. algumas tão bem dadas e ele esquece! eis o sentido da vida: foder muito bem, esquecer e procurar novidades.
eu vivo numa terrível luta contra murphy. minha doce ilusão é impedir que ele me coma. ilusão sim, pois ele tem braços extremamente flexíveis de quatro metros de comprimento e poderia me alcançar em qualquer canto do nosso quarto escuro e mofado. poderia me alcançar, enrolar seus braços de modo que fosse impossível soltar-me, jogar seu corpo de cento e oitenta quilos sobre o meu e explodir meu esfíncter anal em questão de segundos. sim, ele poderia fazer isso tudo e ir embora em busca de mais diversão a qualquer momento. mas o desgraçado não faz.
ele não faz porque gosta de ver meu desespero. e eu penso que ele nunca demorou tanto assim com outra pessoa. por pior que a idéia pareça, nós formamos a dupla perfeita. eu e murphy nos completamos. somos dois filhosdaputa fazendo joguinhos homicidas. e nos amamos. sim, nós nos amamos desde que a anteninha seletora de murphy piscou ao me ver e eu bati meus olhos cor de bosta-fresca-de-vaca nos olhos negros dele. love is suicide, literalmente. mas eu sei que nosso amor vai acabar quando ele me foder. ele é assim, precisa foder e ir embora. sempre. sempre. eu o amo. eu o odeio. eu o amo. eu o odeio. eu fico louca e não quero que ele faça. a sanidade volta e eu quero que ele faça.
eu tentei matá-lo. e ainda tento de todos os modos, com todas as forças. mas como era de se esperar, ele se intromete nos meus planos ou simplesmente escorre por entre os dedos da morte como a vida escorre por minhas mãos enquanto ele me persegue. quando eu passo soda cáustica no vibrador cor-de-rosa de silicone que ele usa toda sexta à noite, ele inventa de fumar aqueles charutos fedorentos e deixar a diversão para o dia seguinte. quando eu coloco água sanitária no colírio os olhos dele nem ficam vermelhos. quando eu coloco algum veneno letal na vodca ele inventa de chapar com mescalina e deixa a vodca de lado. e enquanto isso ele me desespera. ele sussurra no meu ouvido e respira na minha nuca. me pendura pelos tornozelos na sacada do vigésimo andar e me obriga a cantar com ele. morde meus ombros. me deixa exangue e me faz rir. eis o nosso joguinho mortal. nossa deliciosa diversão. o fruto do nosso belo amor suicida. doentio, suicida e lindo. lindo.
e só me resta uma pseudo-certeza: ele vai foder cada centímetro de meu corpo e me abandonar, questão de tempo.
ou não...
ahh, meu doce murphy! meu efêmero e profundo amor. vá foder os rabinhos de seus soldados e me deixe em paz. vá enfiar esse vibrador cor-de-rosa de silicone que eu odeio e me deixa morrendo de ciúmes nesse seu cu enorme e me deixe viver. eu te amo, mas quero que esse seu pau de cinco quilos seja decepado e você sangre até morrer. quero que seus enormes braços fiquem roxos como você faz os meus ficarem, e que seu sangue não volte e eles apodreçam, com moscas e odor fétido. quero o podre. quero que seus cento e oitenta quilos de músculos escorram como uma diarréia por suas pernas e desapareçam no esgoto.
eu quero. quero. quero. quero. quero tanta coisa e sei que murphy é indestrutível.
quero que você rasteje aos meus pés e diga que me ama. quero que fique grudado em mim para sempre. quero que seja a causa da minha loucura. ahh meu murphy, fique comigo para sempre e nós vamos nutrir esse amor doentio até conseguirmos a auto-destruição. será que você é capaz? não. você não conseguiria a auto-destruição. você acabaria comigo e continuaria como sempre fez: me esqueceria e encontraria outra vítima dos seus fetiches.
se eu soubesse que meu rosto ficaria gravado para sempre, que meus olhos encontrariam os seus quando se fechassem, que você se lembraria de mim a cada pessoa que quisesse foder... se eu soubesse que meu fantasma lhe aterrorizaria pra sempre até você se suicidar... eu imploraria pra que me fodesse agora.
agora.
e agora só me resta saber se eu sou só mais uma putinha de murphy a cair no esquecimento ou se nossos joguinhos significam algo.
em ambos os casos, meu doce murphy, nos poupe disso. esqueça-me sem comer-me e procure outra diversão. procure alguém que não tenha suor de sangue nas palavras. procure alguém que não tenha farpas correndo nas veias... foi bom enquanto durou.
eu te amei.
eu te odiei.
eu te esqueci.
esqueça-me, meu desgraçado e belo murphy.
:: divina ::
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