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[24.1.06]
e de repente nós desejamos a lembrança sólida. pois nossas cabeças já estavam cheias de saquinhos de lembranças, muitos deles, empilhados por todos os cantos do salão interno do crânio, disputando espaço com os saquinhos de sanidade. nada mais cabia em nós quando nossas mentes cuspiram a idéia. ela nos inspirava medo e repulsa. mas recolhemos os caquinhos de idéia e montamos o quebra-cabeça.
golpe certeiro e respingos vermelhos.
o olhar passeando do ombro até a mão. a mão trêmula apoiada na mesa e sentindo o morno da poça de sangue que engolia-a rapidamente. e literalmente, como era intensa a dor da perda!
alguns centímetros distante, sem vida e exangue, já não parecia mais ter feito parte deste corpo um dia, ter nascido desta mão quase sem sentidos. esta mão egoísta que joga fora o sangue das veias e artérias como se nada aqui dentro precisasse mais do líquido. e nada precisava no momento em que as sensações físicas davam lugar a um estado de transe.
eu viajava ao som de meus próprios gemidos, respirando fundo e deixando o cheiro de sangue invadir minhas narinas, vendo o vermelho intenso espalhando-se e turvando-me a visão.
o tempo parecia arrastar-se com dificuldade e quando pudemos abrir os olhos já estávamos de volta ao real e o brilho leve já havia ficado pegajoso. a dor tomava conta de cada célula do meu corpo que parecia já não ter sangue a correr. desfiz-me das sensações ruins e ocupei meu pensamento com a doce satisfação pelo êxito da idéia.
os dias passaram. a noite já mostrava suas últimas luzes puras, suas últimas cores sem a lenta chegada do dia. enquanto as nuvens corriam pelo céu acariciando a face da lua como se estivessem predizendo algo, eu me misturava à janela. sem cor, sem luz, sem sons, sem movimentos. apenas o subir e descer do peito denunciando uma respiração calma e sôfrega.
e de repente saudade.
passei a mão por sobre o bolso e senti-o molhado. espantei as moscas e peguei carinhosamente o pedacinho de você que estava sob meus cuidados. olhei para ele por um tempo sem soltar palavras. pude observar que ele já estava apodrecendo como um pedaço de carne qualquer que permanece ao ar livre. pude recordar que quando o sol estava alto os urubus acompanhavam-me pelas ruas como se me protegessem de algo, mas na verdade queriam comer meus miolos como comeram o pedaço de mim que foi dado a você.
olhei fixamente para aquela ponta de dedo quase irreconhecível e comecei a falar-lhe sobre coisas da vida. quando o monólogo a dois já havia chegado às angústias de raskólnikov ródia senti uma lágrima contornando-me o rosto e caindo sobre meu pulso. respirei fundo e o cheiro podre invadiu-me as narinas fazendo com que meu peito doesse. e continuou doendo e me dizendo que você deveria estar ao meu lado. espantei uma mosca e percebi que raskólnikov poderia ser um babaca aos seus olhos. eu preciso da sua opinião.
em um movimento rápido algo voou sobre minha mão e levou você embora. o pedacinho de você já estava terminando de se desfazer em algum estômago ávido e não havia mais nada a fazer. conformei-me. acabei digerindo a podridão e vendo o óbvio que se escondia de mim há pouco tempo atrás.
eu não queria tudo. queria apenas o que você pode pensar ou dizer.
as moscas já não estavam por perto e o sol exibia o primeiro raio. fechei a janela e joguei na cama o monte de ossos e carnes e cartilagens que precisavam adormecer. lá estava eu imóvel sobre a cama com os olhos arregalados e furacões de pensamentos a espancar a testa.
eu não havia sentido o cheiro. a saudade me incomodava mais do que a carniça.
engoli os comprimidos e fechei os olhos.
logo seria outro dia...
:: divina ::
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