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[12.12.11]


epítome.

era um gato de rua. magro, sujo, torto, feio, esquivo. um gato imundo, mundano, umbiguista. vivia embriagado de vapores da noite urbana. um gato de rua podre e pedante. esdrúxulo e extremamente ensimesmado dentro do seu bueiro. bastava-se tanto que a liberdade virou egoísmo.

mas era só um gato de rua.

:: divina ::

[25.3.10]


pequeno relatório sobre uma noite que nunca vivi.

então chegou mais uma noite igual a todas as outras vividas desde que caí. estrelas e postes enfadonhamente iguais, luzes gélidas afastando qualquer pretensão de sossego e anonimato - ou talvez apenas minhas pupilas me sabotando e me protegendo do medo que eu não tenho do escuro. e naquela noite estúpida eu fui parar naquele lugar em que nunca estive e conheço mais do que a mim mesma. era um lugar extremamente comum, tão comum, deliberadamente comum, que nunca fiz questão de tentar enxergar o que estava fora das minha projeções. e naquela noite, mais uma vez, escutei a música que nunca havia escutado antes; no entanto os acordes me eram mais do que familiares. também estavam lá aqueles ilustres desconhecidos que me acompanham desde sempre. tão ilustres e tão desconhecidos que eu nem vi seus célebres rostos. mas reconheci suas ideologias simplórias e corriqueiras, restos de alguma bebedeira homérica. ouvi suas vozes roucas e intimidadoras disputando espaço com a minha sobriedade. contei aos ilustres desconhecidos tudo aquilo que nunca admiti saber e senti tudo aquilo que nunca admiti conseguir. todas as minhas barreiras caídas ao meu redor. e de repente veio a ventania, uma onda forte arrastou todas as minhas partes que estavam por perto. intensidade. intensidade define bem. foi tudo um intenso disparate de uma noite tão distante que só me deixou algumas etéreas reminiscências. ou foi ontem? não sei. tantas noites bizarramente iguais e bizarramente diferentes me confundem - eu, que já não sei mais como lidar com meu tempo e meus desejos. me lembro bem que bebi as mesmas merdas de sempre, enchi os mesmos cinzeiros de sempre e senti aquele desconforto relativamente inédito em mim. então os ilustres desconhecidos cuspiram na minha cara todas as mazelas que eu costumava esconder nos cantos escuros do meu bueiro. meu bueiro. é isso, eu estive no bueiro com os meus fantasmas e projeções estúpidas fabricando mais alguns quilos dos meus intensos disparates.

e tudo continua igual, tão igual.

:: divina ::

[18.1.08]


e era um dia cor de tédio e cheiro de branco, sólido como um bloco de concreto. não existia uma lua, não existia um sol, não existia um vento, não existia um furacão, não existia um terremoto, não existia uma invasão alienígena em itapecerica da serra, não existia um arrastão na praça matriz de divinolândia, não existia um pão de queijo com maionese picante, não existia uma vontadezinha mínima de tirar o pijama meigo e me montar pra ninguém. enfim, um niilismo existencial bem medíocre e onipresente. o sulferino nas quatro paredes do meu pesadelo contrastando com a cor de tédio do mundo e com e esse maldito hábito de tentar me mimetizar a tudo pra disfarçar sei-lá-o-que, ficando de cantinho-bem-cantinho assim tão de repente que nem eu percebo. de fato fui notar-me no cantinho sulferino após os vapores do vinho e após os vapores da fumaça. essa cor de medo e tédio está insuportavelmente espalhada por todo o meu chão assim como esse cheiro de tinta acrílica misturada com branco e cera finalizadora. o branco dói aquela dor não-induzida e brochante, pior que cocaína barata matamorfoseada em sal de frutas com enxofre. e a janela, como sempre e para sempre, trancada a sete conchinhas. tento me diluir nas sábias palavras escatológicas do velho buk, conselhos travestidos de vinho barato, cavalos de corrida e vagabundas. não, não dá. quem sabe o desespero sufocante e paradoxalmente calmo de kafka? não tem como. e é exatamente aquele dia eterno e cor de tédio e cheiro de branco que exige alguma distração mas não me deixa sair do cantinho-bem-cantinho. ar puro? não resolve. tem gente que nasce pra respirar fumaça de cigarro de palha do canto da boca de algum velho provinciano. e tem coisa que a gente não escolhe mesmo e acontece com uma facilidade absurdamente excessiva. e tem coisa que a gente quer até doer lá dentro aquela dor induzida de ansiedade e está a uma esticadinha de braço, não obstante é abusivamente difícil. é preciso fazer a esticadinha de braço da hora certa, exatamente quando convém ao acaso. o que torna a maioria das pessoas susceptíveis a seus próprios fracassos iminentes é a mania de arquitetar a tal esticadinha de braço. perspicácia, por obséquio. planejar cada átimo de segundo torna as coisas insuportavelmente chatas, mesmo as mais desejadas, mesmo o futuro mais brilhante, mesmo a trepada mais inusitada. e é esse tipo de coisa que elimina toda e qualquer possibilidade de escolha prévia e racional. uma coisa ou outra. às vezes é um querer tão querer que vai e volta por séculos até virar fato consumado sem prévio aviso. aleatoriamente falando, esperar dói. e dói litros. deixa o dia cor de tédio e cheiro de branco, sólido como um bloco de concreto. passei os últimos meses fazendo[tudoerrado]. não consigo mesmo planejar os próximos cinco minutos sem misturar realidade com mundo onírico, nem gosto. mas essa é a ordem natural dos fatos: primeiro vontades viram planos, depois de um tempo não cronometrado planos viram reminiscências empoeiradas na estante, por fim vontades voltam a vontades e se elas forem realmente grandes transformam-se em realidade e retomam planos distorcidos. acabo como uma caronista de mim mesma sem gps nos corredores sem placas e cheios de portas onde impera a total incerteza. para os céticos ou amantes da argumentação, vide raskólnikov e cândido. o pobre raskólnikov perdeu um pedaço da vida que poderia ter sido deveras significante a planejar o daqui-a-pouco que nem existia de fato. e então? deu tudo errado. cândido de voltaire passou muito tempo buscando a vida perfeita, e quando conseguiu viu que era uma ressaca de vodca barata. não faço planos, tento visualizar meus desejos imediatos e colocar a pontinha do pé no chão. não quero a vida perfeita, quero a vida que satisfaça minha necessidade psicossomática de viver em caps lock. dei a esticadinha de braço na hora que me foi conveniente e agora estou de cantinho, cheia de medo, fedendo a desespero e me alimentando das folhas caídas do calendário. enfim, nada de muito atípico. raskólnikov e cândido que me perdoem, quero ser camila chirivino fodida e mal paga.

:: divina ::

[30.4.07]


e então que chorei as lágrimas mais amargas, me encolhi toda, me enrocambolei no edredon como se o vento cortante das madrugadas divinolandenses de julho existisse somente naquele lugar que eu passei a chamar metonimicamente de "quarto". chorei alto e dolorido, expulsei as mágoas em forma de soluços profundos. pedi um abraço. mentira. tudo não passa de uma poética mentira. não chorei, não soltei palavrinhas, não pedi abraço. apenas me encolhi, me mimetizei ao edredon, apaguei a luz e fiquei calada tentando mandar para o estômago a bola de boliche que estava na garganta, tentando mastigar as farpas com sangue e colocar os pregos no colchão. "eu sinto tanta falta de você, de andar pelas ruas sem saber porquê e escrever nas roupas tudo o que ninguém parece escutar". como diria aquele cara do los hermanos, "aquilo que eu temia aconteceu ou foi só ilusão": me transformei num transgênico estrambótico drummondiano de mim mesma. a minha história? desenhos, percepção despercebida de uma realidade inexistente. palavras, hieroglifos enigmáticos de um código degenerado. imagens, imagens nas pálpebras, no céu da boca, nas roupas. imagens que ninguém quer ver, símbolos que ninguém quer entender, uma subjetividade ébria e inerente a mim. sinto falta de mim mesma, do tempo em que eu era real dentro do meu mundo inventado. eu acreditava nos meus próprios passos, mesmo que incertos e inacabados como um clipe sem nexo e sem final de uma música sem escala e tom. me sinto como aquele garoto do filme que de repente se vê preso a um livro em branco de uma história sem fim. essa é a essência da coisa: nunca acaba, acaba e ninguém percebe, recomeça e ninguém nota, ciclos se fundem a todo momento e ninguém é avisado quando tem uma nova chance. sempre correndo, sempre atrasada... talvez seja adolescente demais esse negócio de incertezas e culto a um passado não tão distante e não tão bagunçado como agora. vejo uma 'velha' de cinqüenta anos perdida em algum lugar fracassado do mundo, com olhos bonitos e uma saudade imensa de si mesma sob forma de remorso, sem luz e sem sombra. tudo o que ela quer é sair sem rumo numa noite fresca de segunda-feira e voltar bem tarde após cigarros, folhas secas e estrelas cadentes. mas ela não vai. não consegue pensar em nada além do rosto feliz a ser simulado na manhã do dia seguinte. e no próximo. e depois também. e sempre depois do próximo. tudo pra manter aquele emprego detestável de dalitógrafa mal-paga e mal-comida e pagar o aluguel daquele armário travestido de quarto e arquitetado estrategicamente para que o ar não entre. "e é tão fora de moda ficar mal..."

:: divina ::

[7.2.07]


"...não há nada além de tinta e sangue em tuas escrituras."

eu abri os olhos e de repente percebi que haviam colocado uma parede de vidro entre minhas mãos e tudo o que eu sempre quis tocar. de algum modo eu sei que o vidro é inquebrável. desespero. tento bater, não aceito a "verdade: inquebrável" do vidro. cada centímetro do meu corpo pálido dói qual milhares de punhais entrando vagarosamente e sufocando gritos roucos. meus braços já se acostumaram com a dor punjente, eu bato sem parar, sem respirar, sem ver, sem sentir. meus dois braços fracos suicidam-se por exaustão, e o vidro resiste. o sangue saído de meus punhos abertos não pode manchar o vidro, não é digno sequer de aproximar-se dele. o que mais desejo tocar continua intocado e intocável frente a meus olhos salgados de lágrimas e turvos de sangue. tento virar-me na esperança de encontrar saída ou ao menos distração. colocaram outro vidro às minhas costas, o mesmo vidro inquebrável e imaculável, e atrás dele uma luz tão forte que faz meus olhos sangrarem, ultrapassa as pálpebras inchadas e as mãos magras com os punhos fedendo a sangue podre. a luz queima, tortura. colocaram-na lá estrategicamente para me lembrar do FRACASSO. sinto na pele rasgada o vento frio que cheira a amoníaco e carrega grãos de areia e sal. eu mesma coloquei as placas de vidro lá, mas não me lembro da saída. corro em direção ao vento, uma corrida sem fim de olhos fechados e adagas em punho em busca de um inimigo inexistente a quem culpar pela minha própria incapacidade. meus calcanhares sangram sobre o fogo do chão. esfrego os olhos com os punhos ensangüentados para tirar um pouco da areia e das asas de insetos mortos. inútil. tenho as pernas quebradas e me esqueço disso a todo instante. na verdade eu sempre soube do fim trágico, mas nunca imaginei que ter certeza pudesse doer tanto. tanto. e fico impotente diante dessa dor, auto-desprezo. agora já não sei se quero ser um gregor samsa a apodrecer num quarto escuro ou se quero continuar me jogando ao coliseu de FRACASSOS.

:: divina ::

[2.2.07]


madrugada. pessoas dormem como anjos suínos e exalam odores e ruídos, pessoas descansam em seus travesseiros de pena de ganso e ares homéricos, pessoas sonham com coisas lindas e desejáveis. mas eu não. eu escuto os gritos desesperados daquele gênio que de repente invadiu a minha vida, penetrou em cada milímetro cúbico da minha rede neural e me fez digerir cada palavra de sua arte. tento prestar atenção no timbre de voz, nos gemidos das guitarras, na suavidade do baixo, nas batidas acíclicas da bateria, mas minha mente vai mais alto, transcende os fones de ouvido e paira no teto do quarto. olho fixo para a uniformidade inerte do teto por algum tempo não-cronometrado e tento imaginar como seria se ele não estivesse ali. fecho os olhos, tento pensar em algo que é como é porque não depende da minha vontade e nunca esteve condicionado aos caprichos de alguém. não consigo ver nada além das minhas pálpebras cansadas que mesmo assim não se deixam fechar facilmente. não me lembro de como é o céu além do teto, não me lembro das formas amebóides das nuvens, não posso imaginar a palidez do luar, se é que ainda existe uma lua, se é que ainda existe um céu. talvez eu tenha me trancado por tanto tempo no quarto escuro de desejos falsos e mofados que me esqueci de olhar pra fora. e agora percebo, me esqueci também de como olhar pra fora. já não posso abrir as janelas e deixar a luz entrar. me acostumei a viver sem luz, criando mitos sob uma vela sem pavio e experimentando cores fantásticas de uma paleta monocromática. deixei que as aranhas fizessem suas obras de arte em teia sobre cada vão das janelas. deixei o mofo me invadir e escrever versos épicos e ilegíveis na minha traquéia. tranquei e porta e engoli a chave. os interruptores estão espalhados por todos os lados, são milhares deles ávidos por meus dedos trêmulos a tocá-los no escuro, mas eu fiz questão de cortar todos os fios segundos antes de engolir a chave. não há luz para os espelhos disformes que me perseguem. apalpo a escuridão e só encontro seres etéreos que sussurram em meu ouvido que lá fora existe vida. lá fora. e eu existo só aqui dentro, convivendo horas a fio com meus medos, pesadelos e inseguranças que sempre tentei trancar dentro no armário, atar as mãos, cortar as línguas e asas para sustentar meu vício da auto-suficiência e alcançar o nirvana do inexorável. mas eles existem na mesma proporção que eu semi-existo e o armário está insustentavelmente cheio. a verdade é que eu nunca olhei pra fora e nunca fui um arquétipo da satisfação. melhor assim, isso torna a luz desnecessária.

:: divina ::